Em nome daqueles que morreram em La Moneda bombardeado

Com cópia a meu compa e irmão chileno, Máximo Kinast, que hoje vive em Lima
Coube-me, não sei se por destino ou por viver de um modo, digamos, bastante alternativo, morar no Chile. Presidia esse lindo país Patrício Alwyn. Corria o início da década de 90. Fiquei por lá quase três anos, casei-me e tenho um filho chileno.
Foi por essa época que o general e seus canalhas resolveram que seria, dali em diante um senador vitalício...
Nessa época, embora o presidente fosse um civil eleito democraticamente, quem ainda mandava, desmandava e na verdade mantinha o poder eram ainda os militares. Pinochet, do alto de sua arrogância e prepotência, ainda detinha o poder de encarcerar e oprimir. Lembro-me da cidade de Santiago, a mais linda e cuidada cidade que conheci, com o trânsito parado, cheio de pomposos e mal-educados batedores em super-motocicletas, para que Pinochet, dentro de suas reluzentes Mercedes, pudesse passear pelo que considerava seu quintal, seu feudo.
Lembro-me da primeira vez que entrei no Estádio Nacional, onde centenas de lutadores (e não lutadores) morreram nos dias seguintes ao golpe. Um misto de náusea, medo e terror chegou a me invadir. Difícil não tomar a decisão de dar meia volta. Difícil não lembrar do assassinato de Victor Jara.
Em nome daqueles que, depois de mortos, foram atirados no Mapocho
Em nome daqueles que morreram em La Moneda bombardeado
Em nome daqueles que foram traídos pelo general
Em nome dos que nos anos seguintes tiveram seus corpos feridos, suas almas marcadas, seus futuros comprometidos
Em nome daqueles que tiveram de abandonar sua pátria, ocupada por uma matilha de cães ferozes que vestiam fardas
Em nome de meu filho chileno, que agora vê sua terra livre do assassino Pinochet
Em nome de meus amigos Victor e sua esposa, de Máximo, de Jaime (o inesquecível "J"....), de Fernando, de Ángela, de Carmen (todos que passaram pelo exílio forçado) e tantos outros que sofreram na carne e nos nervos a fúria de um demente impune que ordenou que em suas prisões, centros clandestinos de internação e campos de concentração se matasse, se torturasse, se estuprasse e se destruísse vidas de verdadeiros lutadores populares. Quanta violência e quanto sangue amigo rolou por esse nosso continente.
Enfim morreu o ditador!
Em Santiago, nesse momento, a multidão toma conta da Plaza de Armas e da Alameda em festa. São chilenos, povo irmão, que transformarão o 10 de dezembro numa data histórica e ser comemorada e lembrada enquanto a humanidade insistir em produzir monstros. Uma pena esse decrépito morrer impune.
É certo que não devemos, nós que celebramos a vida, comemorar a morte. Mas há exceções...
Saludos
Zanini H.
10/12/2006 16:13 Autor: brasilinsolito. Enlace permanente.

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